terça-feira, 10 de março de 2026

Qual é a Obra do Espírito Santo de Deus na Bíblia?

A obra do Espírito Santo é indicada na Escritura como sendo essencial tanto na história da criação quanto no plano da redenção. Para o cristão, a obra do Espírito Santo sempre deve ter um significado especial, pois é através de sua atuação que a obra redentora é aplicada na vida do crente e o permite desfrutar de um relacionamento pessoal com Deus.

Mas muita gente tem dúvida com relação a atuação do Espírito Santo ao longo do tempo nos diferentes estágios da história da redenção. Por exemplo: algumas pessoas têm dificuldade de perceber a obra do Espírito Santo no Antigo Testamento; enquanto outras não entendem corretamente sua atuação a partir do Novo Testamento.

A obra do Espírito Santo na criação

A Bíblia começa mostrando a obra do Espírito Santo. Os primeiros versículos da Bíblia descrevem a história da criação do mundo e destacam a atuação do Espírito Santo: “No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gênesis 1:1,2).

A expressão “Espírito de Deus” é a mais usual no Antigo Testamento para se referir ao Espírito Santo. Já a palavra “pairava” traduz um termo que também significa “envolver”. Então o texto bíblico basicamente diz que o Espírito Santo envolveu o cosmo que estava desordenado, em trevas, vazio e sem forma, e lhe trouxe ordem, vida e luz. Em certo sentido é a mesma ideia de uma ave que envolve seus ovos com a finalidade de produzir vida.

Em resumo, a obra do Espírito Santo na criação trouxe ordem onde havia desordem; trouxe luz onde havia trevas; trouxe vida onde havia apenas o vazio. Dessa forma, o primeiro capítulo do livro de Gênesis atribui a obra contínua de Deus na criação à atuação do Espírito.

Isso, inclusive, aponta para o fato de que toda a Trindade Divina esteve envolvida na obra da criação. Isso porque o Novo Testamento também informa que todas coisas foram feitas por meio do Verbo de Deus, e sem Ele nada do que foi feito se fez (João 1:1-3; Colossenses 1:16). Então podemos dizer que a criação do mundo foi obra de Deus, o Pai, por meio do Filho, pela agência do Espírito. O salmista coloca essa verdade de forma simples quando diz: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro [ou espírito] da sua boca” (Salmo 33:6; cf. Jó 26:13).

A obra do Espírito Santo na capacitação para o serviço no Antigo Testamento

O Antigo Testamento também revela a obra do Espírito Santo na capacitação especial de certas pessoas. Nesse sentido, o Espírito Santo concedeu a elas habilidades extraordinárias para que elas pudessem desempenhar determinadas tarefas que tiveram alguma importância na história da redenção.

No livro de Gênesis, por exemplo, lemos que as habilidades especiais de José na interpretação de sonhos e na sabedoria para administrar na crise, vinham do Espírito de Deus (Gênesis 41:38,39).

Outro exemplo claro desse tipo de atuação do Espírito Santo na capacitação de algumas pessoas pode ser visto no contexto da construção do Tabernáculo. A Bíblia diz que os artesãos do Tabernáculo foram capacitados de forma especial pelo Espírito de Deus para o serviço para o qual foram designados (Êxodo 28:3).

A respeito do chefe dos artesãos, Bezalel, o texto bíblico diz que Deus o encheu do seu Espírito “no tocante à sabedoria, ao entendimento, à ciência e a todo ofício” para que ele pudesse desempenhar toda sorte de trabalhos na construção do Tabernáculo (Êxodo 31:3). O próprio Moisés, o grande legislador de Israel, também desempenhou seu ministério sob o poder do Espírito de Deus (Números 11:14-17).

Sem dúvida o tempo dos juízes também foi um período onde a atuação do Espírito Santo na capacitação de certas pessoas esteve mais evidente. Naquele tempo Deus levantou homens para exercerem o que podemos chamar de “liderança carismática”. Isso significa que os juízes de Israel foram homens habilitados pelo Espírito Santo. Então Gideão, Jefté, Sansão e os outros juízes, todos agiram pelo Espírito do Senhor (Juízes 6:34; 11:29; 13:25).

O mesmo também pode ser dito a respeito de alguns reis de Israel. A Bíblia diz, por exemplo, que a partir da ocasião da unção de Davi o “Espírito do Senhor se apoderou” dele (1 Samuel 16:13).

A obra do Espírito Santo na vida religiosa de Israel

A obra do Espírito Santo em seu aspecto capacitador também marcou a vida espiritual de Israel. Os sacerdotes, por exemplo, eram ungidos para o seu serviço — o que significava que eles serviam sob o chamado de Deus e a capacitação do Espírito (Êxodo 28:41).

Os profetas que transmitiram ao povo as profecias divinas e registraram a revelação de Deus na Escritura, assim o fizeram pela ação do Espírito Santo (Ezequiel 2:2). Tudo o que eles falaram não foi fruto da vontade humana, mas foi proveniente da inspiração do Espírito Santo (2 Pedro 1:21). Isso também está de acordo com a informação bíblica de que o povo de Deus no Antigo Testamento foi ensinado sob o dom do Espírito de Deus (Neemias 9:20).


A atuação do Espírito Santo na vida de pessoas não crentes

A obra do Espírito Santo na capacitação especial de uma pessoa para o serviço, não deve ser confundida com a obra do Espírito Santo na regeneração do pecador. No Antigo Testamento o Espírito Santo capacitava de forma extraordinária principalmente os crentes. Mas também é verdade que em alguns casos essa capacitação também podia ser estendida sobre certos indivíduos que não eram verdadeiramente crentes.

Por exemplo: na Bíblia lemos sobre como o reprovável Balaão chegou a profetizar sob o poder do Espírito Santo (Números 22-23). Os filhos do sumo sacerdote Eli, embora pertencessem a uma linhagem ungida de sacerdotes, eram ímpios (1 Samuel 2:12). Quando Saul foi ungido como rei de Israel, o Espírito Santo veio sobre ele, mas depois o mesmo Espírito se retirou dele (1 Samuel 16:14).

Esses episódios deixam claro que a unção do Espírito Santo para o exercício de um serviço específico não era o mesmo que o dom da regeneração produzido pelo Espírito de Deus na vida do pecador.

Inclusive, isso explica a oração do rei Davi ao Senhor após reconhecer os seus pecados: “Não retires de mim o teu Espírito Santo” (Salmos 51:11). Davi havia visto o fim desastroso de Saul quando o Espírito Santo se retirou dele. Então tendo em vista os seus pecados, Davi temeu perder a unção especial dada pelo Espírito do Senhor que lhe habilitava para reinar e pastorear sobre Israel.

Mas essa oração do rei Davi é interessante porque foi a oração de uma pessoa que não apenas tinha sobre sua vida a unção do Espírito Santo para desempenhar o seu ministério, mas também era uma pessoa que tinha recebido o dom da regeneração operada pelo Espírito Santo.

Por isso, do começo ao fim a oração de Davi foi uma oração de arrependimento sincero; foi uma oração de quem queria ser restaurado, purificado e invadido novamente pela alegria da salvação que é comum somente àqueles que desfrutam de plena comunhão com Deus (Salmos 51:12).

A atuação especial do Espírito Santo no Novo Testamento

Conforme o caráter progressivo da revelação de Deus à humanidade, a obra do Espírito Santo se mostrou mais intensa a partir do tempo do Novo Testamento. Enquanto no Antigo Testamento a obra do Espírito Santo de forma especial na vida das pessoas era mais isolada, a partir do Novo Testamento ela se tornou mais abrangente e completa.

Por exemplo: quando Moisés sentiu o peso da pressão israelita no deserto, Deus lhe proveu ajuda compartilhando com setenta anciãos o mesmo Espírito que havia sido dado apenas a Moisés. Então naquele contexto Moisés declarou que almejaria que o Senhor desse a todo o povo o seu Espírito (Número 11:29).

Mais tarde, através do profeta Joel o Senhor anunciou que aquela realidade desejada por Moisés haveria de acontecer, pois Ele haveria de derramar do seu Espírito sobre toda a carne, sobre jovens e velhos, servos e senhores (Joel 2:28,29).

Essa profecia começou a ser cumprida, primeiramente, com o advento do Messias. Na pessoa do Senhor Jesus Cristo o Espírito Santo repousou de uma forma incomparável. O próprio milagre da encarnação sob a concepção de uma virgem foi obra do Espírito Santo (Lucas 1:35).

Inclusive, em sua pregação João Batista anunciou que Jesus é Aquele que batiza com o Espírito Santo (João 1:33). E na ocasião do batismo de Jesus a Bíblia registra que o Espírito Santo desceu sobre Ele de forma perceptível (Mateus 3:16).

Por isso durante seu ministério Jesus indicou que a profecia do profeta Isaías estava sendo cumprida em sua pessoa: “O Espírito do Senhor é sobre mim, porque me ungiu…” (Lucas 4:18-21; cf. Isaías 61). Dessa forma, a atuação do Espírito Santo esteve sempre presente durante todo o ministério terreno de Jesus. As obras que Ele realizou foi pelo poder do Espírito de Deus (cf. Mateus 12:25-32).

Depois, o mesmo Senhor Jesus falou sobre o derramamento do Espírito Santo que haveria de acontecer após a sua partida (Lucas 24:49; João 14; Atos 1:4,5). E isso aconteceu no dia de Pentecostes, quando foram cumpridas as promessas vetero testamentárias sobre a vinda do Espírito Santo sobre todo o povo de Deus (Atos 2:16-21).

A obra do Espírito Santo na Igreja

A atuação do Espírito Santo em seu aspecto capacitador continuou no Novo Testamento. Os apóstolos foram capacitados pelo Espírito Santo de forma especial para lançarem os fundamentos da Igreja do Novo Testamento.

Além disso, nesse sentido, os apóstolos e os demais escritores do Novo Testamento foram habilitados pelo Espírito Santo para uma obra singular, tal como também foram anteriormente os profetas do Antigo Testamento que proclamaram e registraram a Palavra de Deus. Esse tipo de capacitação jamais se repetirá, pois a Escritura está completa e os fundamentos da Igreja já foram lançados.

Mas os demais crentes do Novo Testamento não ficaram desprovidos de poder e virtude do Espírito. A promessa de que o Espírito Santo seria derramado sobre todo o povo de Deus no Novo Testamento de fato se cumpriu!

Assim, na Igreja do Novo Testamento não são apenas indivíduos isolados que recebem o dom o Espírito Santo de forma especial como ocorria nos tempos do Antigo Testamento. Na verdade, a obra do Espírito Santo abrange toda a Igreja; o Espírito de Deus atua em todo crente genuíno. Isso porque “todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Coríntios 12:13).

Isso, no entanto, não quer dizer que todos os crentes possuem os mesmos dons. A Bíblia explica que a atuação do Espírito Santo na distribuição dos dons na Igreja é soberana. A obra do Espírito Santo, no que diz respeito a capacitação do crente com habilidades especiais para o serviço na obra de Deus, ocorre conforme Ele quer. Dessa forma, o Espírito Santo distribui diferentes dons a diferentes crentes, de modo que a Igreja possa funcionar como um corpo bem ajustado (1 Coríntios 12:1-27).

A obra do Espírito Santo no plano da redenção

Já falamos sobre como a obra do Espírito Santo pode ser vista na Igreja. Mas a Igreja são pessoas; a Igreja é a união daqueles que foram redimidos em Cristo Jesus. Então embora no contexto coletivo nem todos os crentes possuam o mesmo dom, ou foram chamados para o mesmo serviço, todos possuem o mesmo Espírito habitando suas vidas e dando-lhes poder para o cumprimento do ministério cristão. Então nesse ponto é importante entender que o Espírito Santo é o responsável por aplicar a obra da redenção na vida do pecador.

A vida cristã não tem início sem a obra do Espírito Santo. Conforme também já falamos, o Espírito Santo atuou na obra da criação produzindo vida; trazendo ordem e luz onde havia caos e trevas. Mas a Bíblia também fala do Espírito Santo não apenas como fonte da vida biológica, mas também da vida espiritual.

Jesus Cristo anunciou que Ele veio para que as pessoas “tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10). A palavra “vida” na declaração de Jesus não traduz o grego bios, que denota um organismo vivo, mas traduz o grego zoe, que se refere a uma qualidade especifica de vida. Em outras palavras, Jesus estava falando de um tipo de vida que mesmo as pessoas que já estão biologicamente vivas precisam experimentar.

É claro que Jesus estava falando da vida espiritual com a qual a pessoa torna-se participante do Reino de Deus. Mas como alguém pode ter acesso a essa vida espiritual? O mesmo Senhor Jesus ensinou que para isso é necessário ao homem nascer de novo; não da carne, mas do Espírito (João 3:1-8).

A obra do Espírito Santo na regeneração e conversão do pecador

O novo nascimento que o pecador precisa experimentar é a regeneração. A regeneração é a transformação radical e miraculosa do pecador ressuscitando-o de seu estado de morte espiritual e mudando a inclinação de seu coração. Como diz R. C. Sproul, a regeneração é a transmissão de vida nova a almas mortas (Somos Todos Teólogos, 2014). Esse acontecimento sobrenatural é realizado pelo Espírito Santo, pois Ele é quem aplica em nós a obra d’Aquele que veio para que pudéssemos ter vida abundante.

Ainda sobre a obra do Espírito Santo no início da vida cristã, sua atuação se estende também na conversão do pecador. Algumas pessoas não entendem exatamente a diferença entre a regeneração e a conversão. Mas como explica M. Erickson, podemos falar da regeneração como o início da vida cristã da perspectiva divina, enquanto que a conversão é o início da vida cristã a partir da nossa perspectiva. A conversão é a volta do indivíduo para Deus (Teologia Sistemática, 1992).

Então é no processo de conversão que o pecador passa a ter convicção de seu pecado a ponto de responder com arrependimento, enquanto recebe com fé a pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo. Portanto, tudo isso também só é possível pela obra do Espírito Santo. É o Espírito de Deus que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo, para que ele possa tornar a Deus (João 16:8-11). Além disso, a Bíblia também diz que ninguém é capaz de reconhecer que Jesus é o Senhor se não pelo Espírito Santo (1 Coríntios 12:3).

A obra do Espírito Santo na continuidade da vida cristã

No decorrer da vida cristã a obra do Espírito Santo também é notória. Já falamos que é obra do Espírito Santo revestir o crente de poder e distribuir dons especiais para o crente desempenhar o seu papel dentro do Corpo de Cristo.

Mas tudo isso é possível, primeiramente, porque o Espírito Santo habita na vida do crente (João 14:16,17). E pela habitação do Espírito Santo os crentes são feitos o próprio “templo de Deus” (1 Coríntios 3:16).

Habitando no crente, o Espírito Santo é também o outro Consolador enviado pelo Pai em nome do Filho (João 14:26). A palavra “consolador” traduz o grego paracleto que indica um “auxiliador”, um “defensor”.

Como o outro Paracleto, o Espírito Santo assiste o crente em suas dificuldades, fortalecendo-o em sua caminhada na fé. Nesse sentido, faz parte da atuação do Espírito Santo servir como um intercessor quando o crente não sabe como orar (Romanos 8:26,27).

O Espírito Santo ainda atua de forma pedagógica na vida do cristão. Ele ensina e esclarece a Palavra de Deus ao crente, iluminando sua mente (João 14:26). E por fim, faz parte da obra do Espírito Santo como o outro Paracleto produzir santificação na vida do crente. Nesse sentido, Ele vai moldando continuamente o cristão para que ele se pareça cada vez mais com Cristo e viva de forma adequada à sua nova realidade espiritual, demonstrando os frutos distintivos de alguém que, de fato, vive no Espírito (Romanos 8:1-17; cf. Gálatas 5:22,23).

Aqui é importante enfatizar que a atuação do Espírito Santo na regeneração, conversão e santificação do pecador não é uma obra que Ele passou a realizar apenas a partir do Novo Testamento. Já nos tempos do Antigo Testamento era o Espírito Santo quem operava na vida do pecador, regenerando-o, convertendo-o e santificando-o.

 

Não Por Força Nem Por Violência, Mas Pelo Meu Espírito

A frase: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” significa que a obra do Senhor não é estabelecida e realizada com base nos méritos das realizações humanas. O sucesso da obra de Deus depende, antes de tudo, da ação poderosa do próprio Espírito de Deus.

Essa declaração esta registrada num versículo do livro do profeta Zacarias, onde lemos: “Esta é a palavra do Senhor para Zorobabel: Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 4:6).

Como o versículo deixa claro, essa frase foi uma declaração de encorajamento da parte do Senhor direcionada a Zorobabel. Então é importante entender brevemente o contexto em que ela aparece. O povo judeu havia retornado à cidade de Jerusalém após décadas de cativeiro. Eles tinham a tarefa de reerguer a cidade e, especialmente num primeiro momento, reconstruir o templo.

Então o Senhor levantou homens valorosos para liderar e encorajar os judeus remanescentes na tarefa da reconstrução do templo e na conseqüente restauração de Jerusalém. Zorobabel era um desses homens. Ele era um descendente legítimo do rei Davi e assumiu a posição de líder de Judá naquele período. Ao seu lado também estava o sumo sacerdote Josué que trabalhou junto de Zorobabel na reconstrução do templo.

Mas o povo precisava ser encorajado; precisava saber que apesar de suas falhas e limitações, Deus não falharia em cumprir o seu propósito. Então para encorajar e comunicar sua vontade àquele povo, o Senhor levantou os profetas Ageu e Zacarias.

O ministério profético de Ageu falou muito sobre a reconstrução do templo; enquanto que o ministério de Zacarias, embora também tenha falado sobre a reconstrução do templo, enfatizou de forma especial as bênçãos futuras que aguardavam a comunidade restaurada.

Não por força nem por violência

Oposição, desânimo e impossibilidade formavam o pano de fundo da declaração: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito”. A reconstrução do templo havia sido iniciada anos antes dessa declaração, mas a obra não estava sendo nada fácil. Oposições internas e externas ameaçavam a conclusão da obra. Além disso, o próprio povo estava abatido e intimidado diante de suas próprias limitações e incapacidades.

Em comparação com o primeiro templo que havia sido construído durante o reinado do rei Salomão, a situação da reconstrução do templo no pós-exílio era completamente outra. No tempo de Salomão Israel era um reino poderoso e contava com inúmeros recursos.

Agora, no tempo de Zorobabel, havia apenas uma comunidade que havia sobrevivido aos anos difíceis do exílio. No tempo de Salomão havia um rei no trono de Jerusalém e a nação era soberana. Mas no tempo de Zorobabel, humanamente falando a nação estava frágil e subjugada. Porém, embora o trono de Jerusalém estivesse vazio – não havia a figura oficial de um rei em Judá – o trono do universo estava ocupado. O Deus Todo poderoso que governa a história é quem estava cuidando de todas as coisas.

Então com o objetivo de explicar o seu plano àquela comunidade remanescente, Deus deu ao profeta Zacarias oito visões noturnas que tratavam da obra de reconstrução sob as lideranças de Zorobabel e Josué (Zacarias 1:7-6:8). Mais precisamente na quinta visão, o Senhor mostrou ao profeta que a reconstrução do templo seria completada, e nada poderia impedir essa obra.

Mas Zorobabel e Josué eram seres humanos limitados que não tinham os recursos necessários para concluir a obra. Daí vem o encorajamento do Senhor: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito”.

Nessa expressão a palavra “força” traduz o hebraico hayil que indica “habilidade”, “eficiência” e “proeza humana”. Esse termo muitas vezes é aplicado no sentido militar para enfatizar a força e a bravura de um exército. Já a palavra “violência” – ou “poder” em algumas traduções – traduz o hebraico koah que indica “poder”, “vigor” e “força humana”.

Mas pelo meu Espírito

Quando o rei Salomão construiu o primeiro templo, ele contava com um exército de operários (1 Reis 5:13-18). Com uma oferta de mão de obra quase que ilimitada, não faltavam recursos para uma construção bem sucedida. Claro que aquela situação confortável também havia sido providenciada por Deus. Foi o Senhor quem havia feito prosperar o reinado de Davi e na sequência abençoado o governo de Salomão. Como uma nação soberana sobre outras nações, Israel recebia tributos e juntava tesouros que possibilitavam construções esplendorosas.

Mas os judeus do tempo de Zorobabel não tinham a força, o vigor, a habilidade e o poder que seus antepassados dispuseram quando construíram o templo de Salomão. Mas eles também se sentiam desmotivados com o fato de que cabia a eles a tarefa de reconstruir aquele templo que havia sido destruído pelo rei Nabucodonosor, sem ter recursos à altura dos recursos que foram empregados na construção original.

Foi por isso que Deus disse através de Zacarias: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito”. A reconstrução do templo não se daria pela força de um exército, nem pelo vigor individual do homem, e muito menos pela fartura de recursos. O que haveria de garantir o sucesso daquela obra era o poder do próprio Deus.

O povo estava desanimado, a oposição dos inimigos era grande e a economia daquela comunidade pós-exílio estava quebrada. Mas aquela obra seria terminada; não por força nem por violência, mas pelo Espírito do Senhor. Através do profeta Ageu o Senhor garantiu a presença de seu Espírito no meio daquele povo: “O meu Espírito habita no meio de vós; não temais” (Ageu 2:5).


Não por força nem por violência: uma lição para todos nós

A declaração: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” é muito mais do que uma mensagem para Zorobabel. Ela serve como um encorajamento a todos que estão engajados na obra de Deus; bem como um aviso a todos que pensam que há mérito humano no que é realizado para o Senhor.

Somente quando vivemos pelo Espírito e somos guiados por Ele, é que podemos experimentar o verdadeiro sucesso espiritual. O Espírito do Senhor é a fonte de toda boa virtude que possamos demonstrar; o Seu poder é a força e o vigor para toda boa obra que possamos realizar.

Jamais devemos cair no erro de pensar que a obra do Senhor depende da força do nosso braço ou do arranjo da nossa sabedoria. Também jamais devemos tentar fazer alianças estranhas na tentativa de produzir algo bom diante de Deus. Algumas pessoas importam recursos do mundo como se a obra do Senhor dependesse disso.

Como se diz  quando o Espírito de Deus governa cada detalhe é que o serviço pode glorificá-lo (Comentário de Ageu e Zacarias, 1972). Nesse sentido, W. Wiersbe também diz que somente a obra realizada pelo poder do Espírito glorificará a Deus e passará pelo fogo do seu julgamento (Comentário Bíblico Expositivo, 2001).

Portanto, que fique claro que não há força, habilidade ou poder humano que seja suficiente para realizar a obra do Senhor. Então diante de tudo o que nos dispusermos a fazer, que sempre esteja aos ouvidos a palavra do Senhor que diz: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito”. Que essa declaração seja nosso encorajamento, nossa motivação e também o aviso que nos faça creditar corretamente a glória por toda obra que fizermos a quem realmente merece recebê-la: o próprio Deus.

 

Deus é o Dono do Ouro e da Prata: “Minha é a Prata e Meu é o Ouro

Dizer que Deus é o dono do ouro e da prata significa que Ele é o soberano possuidor de todas as coisas. Deus é a fonte última de todas as riquezas, porque tudo lhe pertence. Na Bíblia é o próprio Deus quem afirma ser o dono do ouro e da prata. Através do profeta Ageu, o Senhor diz: “Minha é a prata, e meu é o ouro, diz o Senhor dos Exércitos” (Ageu 2:8).

Há ainda muitos outros versículos bíblicos que apontam para a verdade de que Deus é o dono do ouro e da prata, isto é, de todas as riquezas. No Salmo 24, por exemplo, o salmista escreve: “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem” (Salmo 24:1). Em outra parte o mesmo livro de Salmos afirma que a Deus pertence toda a criação (cf. Salmo 50:10).

Mas sem dúvida o versículo que é sempre o mais lembrado quando falamos que Deus é o dono do ouro e da prata é aquele registrado no livro de Ageu. Nesse sentido é interessante entender o contexto em que o Senhor afirma: “Minha é a prata, e meu é o ouro”.

Minha é a prata, e meu é o ouro

O Senhor afirmou ser o dono do ouro e da prata numa ocasião muito importante para o povo de Deus. O povo de Judá vinha de muitos anos de exílio na Babilônia e havia recebido a oportunidade de retornar à cidade de Jerusalém para reconstruir o templo.

Quando o rei Nabucodonosor conquistou o Reino de Judá e invadiu Jerusalém, ele também destruiu o templo que havia sido construído durante o reinado do rei Salomão. E agora, o remanescente do cativeiro, tinha nas mãos a tarefa de reedificar o templo. O problema é que aqueles eram dias de crise, no sentido de que o povo não desfrutava mais da condição favorável de outrora. Os dias de sucesso e glória experimentados pelo povo durante reinados prósperos como os de Davi e Salomão, tinham ficado para trás.

A economia instável, a escassez de recursos, a oposição interna e externa à reconstrução do templo, e o desânimo geral da nação, atrapalhavam de forma crítica a obra. Mas Deus levantou profetas como Ageu e Zacarias para encorajar o povo e conclamar o arrependimento, pois Deus responderia a fidelidade e a obediência de seu povo derramando grandes bênçãos sobre Israel.

O líder da nação naquele tempo era Zorobabel, um descendente da casa de Davi. Zorobabel foi comissionado por Deus a liderar a reconstrução do templo. Zorobabel também contava com o auxílio de Josué, o sumo sacerdote da época. Então foi nesse contexto que Deus disse a Zorobabel, a Josué e todo o povo: “Minha é a prata e meu é o ouro, diz o Senhor dos Exércitos”.

Isso sem dúvida isso tranquilizou e encorajou o povo a levar adiante a obra de reconstrução. Aqueles que estavam desanimados pelo fato de que o novo templo aparentemente não estaria à altura do antigo templo edificado por Salomão com toda sua riqueza, agora podiam descansar na providência do Senhor. Eles não tinham as riquezas que estavam disponíveis durante o reinado de Salomão. Mas a obra seria terminada, porque o próprio dono do ouro e da prata estava envolvido nela.


Deus é o dono do ouro e da prata

É verdade que algumas pessoas tomam essa verdade bíblica de que Deus é o dono do ouro e da prata e a aplicam-na de uma forma estranha aos princípios bíblicos. Quando a Bíblia diz que Deus é o dono do ouro da prata, isso não significa uma promessa de prosperidade terrena para o crente, mas significa uma afirmação clara acerca da providência soberana de Deus.

Deus cuida do seu povo e concretiza os seus propósitos. Se de acordo com a vontade de Deus o primeiro templo de Salomão foi construído por um Estado rico, de acordo também com a mesma vontade foi que o segundo templo do pós-exílio acabou sendo construído por pessoas pobres.

Então foi realmente muito significativa a declaração de que Deus é o dono do ouro e da prata naquele contexto; pois essa declaração deixava claro que tudo estava ocorrendo de acordo com a vontade do Senhor.

Se Deus quisesse que o segundo templo fosse um edifício tão esplendoroso do ponto de vista material como aquele edificado por Salomão, assim teria acontecido; afinal Ele é o dono do ouro e da prata. Mas Deus estava interessado mesmo era, antes de tudo, em ensinar àquele povo acerca da sublimidade das riquezas espirituais. O esplendor do templo não estava no ouro de suas paredes e de seus mobiliários, mas na presença manifestada do próprio dono do ouro e da prata.

Isso também nos ensina que Deus é sempre o garantidor dos recursos para sua obra. Deus é o provedor em quem os crentes são convidados a confiar. Quando o povo de Deus confia em Deus, não faltam recursos de Deus para o povo de Deus. O Senhor supriu as necessidades do povo que havia subido do exílio, e a obra de reconstrução do templo foi concluída. Inclusive, a glória daquele segundo templo excedeu a glória do primeiro templo – embora o templo de Salomão tivesse reunido riquezas incalculáveis. Foi aquele mesmo templo, construído num tempo de crise e dificuldade, que mais tarde o próprio Deus encarnado entrou por suas portas.

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

As Coisas Velhas se Passaram, Eis Que Tudo se Fez Novo

O versículo que diz que “as coisas velhas se passaram, eis que tudo se fez novo” significa que aqueles que estão em Cristo não enxergam mais o mundo da mesma forma. Após serem convertidos a Cristo, os crentes não encaram mais a vida como antes. Eles fazem parte da nova criação e, portanto, possuem uma nova orientação a respeito de Cristo, das pessoas e do mundo ao seu redor.

A frase: “as coisas velhas se passaram, eis que tudo se fez novo” é mais bem compreendida quando consideramos o contexto em que ela aparece. O estudo bíblico mostra que quem escreveu essas palavras foi o apóstolo Paulo ao responder os ataques de falsos mestres que estavam tentando se introduzir na igreja de Corinto. Basicamente essas pessoas mal intencionadas queriam destruir a reputação ministerial de Paulo dizendo que seu apostolado não era verdadeiro, que a mensagem que ele anunciava era falsa, e que suas motivações eram erradas.

Mas Paulo respondeu esses ataques falando aos crentes coríntios que seu ministério era motivado pelo temor ao Senhor e pelo amor de Cristo que o constrangia. Esse amor, inclusive, o inseriu numa nova criação e mudou completamente o seu entendimento a respeito de Cristo, das pessoas e do mundo em geral.

Paulo ensina que aqueles que foram alcançados pelo amor de Cristo não vivem mais de forma egoísta, mas vivem para o Senhor (2 Coríntios 5:15). Eles não consideram mais ninguém do ponto de vista humano, mas do ponto de vista do amor de Cristo (2 Coríntios 5:16). O próprio Paulo outrora havia considerado Cristo do ponto de vista humano. Ele enxerga a Cristo como um impostor cuja mensagem deveria ser silenciada. Então antes de sua conversão ele dedicou seus esforços a perseguir os seguidores de Cristo.

Mas tudo isso mudou radicalmente quando ele foi unido a Cristo pela fé e constrangido por seu amor sacrifical. A partir daí ele se tornou participante da nova criação, de modo que “as coisas velhas se passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).


As coisas velhas se passaram

A frase: “as coisas velhas se passaram” se refere ao antigo modo que os crentes tinham de enxergar a Cristo e o mundo antes de sua conversão. Todas as coisas eram vistas sob a perspectiva humana, ou seja, sob o entendimento de uma mente sem a iluminação do Espírito Santo e o conhecimento de Deus.

Antes da conversão, os crentes viviam de acordo com a sua natureza caída. Eles andavam conforme a antiga criação que caiu em condenação por causa da desobediência de Adão. Mas estando em Cristo, os crentes agora fazem parte da nova criação formada pela obediência de Cristo, e vivem de acordo com o seu padrão de retidão.

Portanto, como diz William Hendriksen, quando uma pessoa torna-se parte do corpo de Cristo na conversão, sua vida sofre uma inversão completa (Comentário do Novo Testamento). Suas antigas crenças, motivações, planos, prioridades e valores são coisas que ficam no passado. O centro de sua vida muda e, portanto, agora ela passa a enxergar tudo de uma nova perspectiva.


Eis que tudo se fez novo

Como as coisas velhas já passaram, o crente sinceramente pode dizer: “eis que tudo se fez novo”. Isso quer dizer que ele olha para Cristo de uma maneira diferente. A transformação que Cristo opera na vida do crente o transporta da velha realidade para a nova realidade; da antiga criação para a nova criação; das coisas passadas para as coisas novas. Ele passa a enxergar tudo de uma maneira diferente.

Em primeiro lugar, ele passa a enxergar Cristo como o Salvador de sua vida. Por exemplo: após sua conversão, Paulo não mais olhou para Cristo como um falso profeta; não mais olhou para sua mensagem como uma heresia. Mas ele olhou para Cristo como seu Salvador e Senhor; e olhou para a mensagem do Evangelho como o poder de Deus para a salvação.

Em segundo lugar, o crente que esta em Cristo olha para as pessoas ao seu redor de uma maneira diferente. Ele enxerga aqueles que não conhecem a Cristo como pessoas pecadoras que precisam de um Salvador; como ovelhas que precisam de um pastor. E como o amor de Cristo o constrange, o crente é impelido a proclamar esse amor aos outros. Ele também enxerga os demais cristãos como seus irmãos na fé que participam, juntamente com ele, da família de Deus.

Em terceiro lugar, o crente que está em Cristo não vive mais para as coisas passageiras deste mundo, mas para as coisas da eternidade. O pecado não é mais algo que controla sua vida, pois ele possui a mente de Cristo (1 Coríntios 2:16). Sim, as tentações fazem parte de sua realidade presente, mas fervorosamente ele ora a Deus para que não o deixe cair em tentação (Mateus 6:13). Vivendo a nova criação, de fato o crente pode dizer que as coisas velhas se passaram, eis que tudo se fez novo.

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Meu Povo Perece Por Falta de Conhecimento

A frase: “O meu povo perece por falta de conhecimento” traz em seu significado o princípio de que a falta do conhecimento de Deus leva o homem à ruína. As pessoas que desprezam a revelação de Deus através de Sua Palavra não podem ter comunhão com Ele, pois nem mesmo sabem quem Ele é. Separadas de Deus, essas pessoas não encontram outra coisa se não o sofrimento.

Essa frase é uma adaptação de um versículo do livro de Oseias que registra a repreensão do Senhor ao povo de Israel. Através do profeta, Deus anunciou: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Oseias 4:6).

Essa advertência foi direcionada aos integrantes da nação de Israel que tinham rejeitado a instrução do Senhor e falhado em ser seu representante para as nações. Por isso a continuação do versículo diz: “Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Oseias 4:6).

Nos tempos do Antigo Testamento os sacerdotes eram os principais responsáveis por ensinar a lei do Senhor ao povo. Mas naquele tempo os sacerdotes também tinham se corrompido e servido de mau exemplo para toda a nação. Por isso a frase: “O meu povo perece por falta de conhecimento” expressa de forma muito apropriada a situação da nação. Havia um desconhecimento generalizado do Senhor em Israel.

O meu povo perece

Quando Deus levantou o profeta Oseias para profetizar em Israel, a nação estava muito distante da vontade do Senhor. Inclusive, o ministério profético de Oseias foi bastante singular, pois sua situação familiar tipificava a situação de Israel diante de Deus. Oseias era casado com uma mulher infiel. Da mesma forma, Israel também era infiel em seu relacionamento com Deus.

O problema é que Israel havia rejeitado o Senhor e se voltado para os falsos deuses das nações vizinhas. Nesse sentido, a idolatria era um adultério religioso. Embora Deus houvesse sido longânimo, amoroso e misericordioso com aquele povo, os israelitas insistiam em quebrar a lei de Deus e ignorar os convites de arrependimento.

Quando Deus firmou Sua aliança com a nação de Israel no Sinai, e resposta do povo foi: “Tudo o que o Senhor falou nós faremos” (Êxodo 19:8). Mas os israelitas quebraram essa promessa e traíram ao Senhor. Porém, a aliança de Deus com Israel deixava claro que se o povo andasse em obediência receberia as bênçãos do Senhor; mas se andasse em desobediência seria alvo do Seu castigo.

Então por causa da infidelidade do povo à aliança com Deus, a terra foi castigada. Deus enviou calamidades para punir o pecado do povo e, ao mesmo tempo, servir de conclamação ao arrependimento.

Consequentemente, o povo estava perecendo; estava sendo destruído. A corrupção política, social e religiosa havia chegado ao seu limite. A imoralidade imperava no reino. A sociedade israelita era realmente má. Todos estavam mergulhados na mentira e se deleitando na impiedade. Havia crimes de todos os tipos e nada prosperava naquela terra (Oseias 4:1-3).

Os sacerdotes que deveriam zelar pelo culto ao Senhor acabaram não apenas aceitando aquela situação, mas em muitos casos até incentivando-a. Na verdade eles viam o sacerdócio apenas como um emprego fácil e uma fonte de lucro. Os sacerdotes eram ímpios e corruptos, e o povo seguia o exemplo deles. Isso explica a declaração inicial: “O meu povo está perecendo”.

Por falta de conhecimento

Qual era o pecado fundamental que havia conduzido a nação de Israel àquela situação tão miserável? A resposta é clara no texto bíblico: a falta do conhecimento de Deus! Por isso o Senhor falou por meio de Oseias: “Ouvi a palavra do Senhor, vós, filhos de Israel, porque o Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus […] O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta conhecimento […]” (Oseias 4:1,6).

Mas que conhecimento era esse que o povo não tinha? Era o conhecimento de Deus! Nesse texto a palavra “conhecimento” traduz um termo hebraico que também servia para indicar o relacionamento íntimo entre marido e mulher. Isso significa que na declaração: “O meu povo perece por falta de conhecimento” esse “conhecimento” é muito mais do que uma simples cognição das coisas de Deus. Esse “conhecimento” significa um relacionamento pessoal com o Senhor.

O povo tinha desprezado a revelação especial de Deus através de Sua Palavra e perdido o relacionamento pessoal com Ele. O povo não queria saber de Deus. Por isso os israelitas do norte estavam encontrando a destruição.


O meu povo perece por falta de conhecimento: uma lição para nós

Nos tempos de Jesus havia muitos religiosos que se orgulhavam em possuir informações detalhadas da lei de Deus. Mas ao mesmo tempo essas pessoas não conheciam a Deus verdadeiramente. Por isso o Senhor Jesus lhes disse: “Errais por não conhecer as Escrituras nem o poder de Deus” (Mateus 22:29).

Muitas pessoas falam de Deus, se mostram simpatizantes da obra de Deus, se dizem servas de Deus, mas não querem saber de conhecer verdadeiramente a Deus. Elas rejeitam o verdadeiro conhecimento de Deus revelado nas Escrituras que testifica de Cristo — a revelação suprema e final de Deus.

Essas pessoas até são ouvintes da Palavra, mas não são praticantes dela (Tiago 1:20); vivem no engano porque possuem a informação, mas não possuem o relacionamento. Essas pessoas querem conhecer as bênçãos, mas não querem conhecer Abençoador; estão interessadas naquilo que Deus lhes pode dar, mas não estão interessadas em saber quem Ele é.

A verdade é que essas pessoas não estão dispostas a ter um relacionamento sincero, fiel e compromissado com Deus. Essas pessoas não estão dispostas a olhar para a auto revelação de Deus nas Escrituras como única regra de fé e prática de suas vidas. Elas não estão dispostas a reconhecer que não há mérito algum no homem e que qualquer coisa boa que possam ter é simplesmente favor imerecido dado por Deus. Essas pessoas vivem como os israelitas do tempo de Oseias que não viam muita vantagem em ser o povo exclusivo de Deus. E assim essas pessoas estão perecendo por falta de conhecimento.

 

Parábola da Dracma Perdida

A Parábola da Dracma Perdida fala sobre a forma como Deus busca o pecador perdido e se alegra com seu arrependimento. Essa parábola contada por Jesus está registrada em Lucas 15:8-10. Nela, Jesus retratou o empenho de uma mulher que, ao perder uma de suas dez dracmas, diligentemente se põe a procurar a dracma perdida.

Essa mulher acende a candeia e varre toda sua casa, até encontrar a dracma que se perdeu. Ao encontrar a dracma perdida, a mesma mulher convoca suas amigas e vizinhas para que se alegrem com ela por ter achado a dracma. Na conclusão da parábola, Jesus diz que semelhantemente há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende. Vejamos na sequência deste estudo bíblico o significado e a explicação completa da Parábola da Dracma Perdida.

Contexto da Parábola da Dracma Perdida

O evangelista Lucas registrou a Parábola da Dracma Perdida num capítulo onde duas outras parábolas também foram registradas. São elas: a Parábola da Ovelha Perdida e a Parábola do Filho Pródigo.

Obviamente existe uma profunda ligação entre as três parábolas, nas quais Jesus transmite uma mensagem central. Essa mensagem não é outra se não o extraordinário amor de Deus pelos perdidos.

Na ocasião em que contou a Parábola da Dracma Perdida, Jesus estava cercado por publicanos e pecadores que se juntaram para ouvi-lo. Os pecadores eram as pessoas moralmente marginalizadas e de má reputação na sociedade. Essas pessoas não possuíam um padrão de vida aprovado pelos religiosos da época. Por isto, elas eram praticamente excluídas do convívio social.

Já os publicanos eram os cobradores de impostos, os judeus que estavam a serviço do Império Romano. Os publicanos eram vistos pelo povo como traidores que extorquiam os próprios irmãos.

Era recomendado que os judeus evitassem ao máximo ter contato com essas classes de pessoas. Porém, Jesus não apenas tinha contato com essas pessoas, mas também comia com elas e até mesmo ia em busca delas (Lucas 5:27-29). Foi assim com Mateus, um publicano que o Senhor escolheu para ser um de seus doze apóstolos.

Esse tipo de comportamento desagradava completamente os fariseus e os doutores da Lei. Com toda sua ignorância e soberba religiosa, eles não conseguiam perceber que o propósito pela qual o Filho de Deus veio ao mundo, é buscar e salvar o perdido. Então, diante dos religiosos escandalizados, Jesus contou três parábolas, entre elas a Parábola da Dracma Perdida.

Explicação da Parábola da Dracma Perdida

Essa é uma parábola bem pequena, porém em sua simplicidade revela uma história completa e profunda. A história da mulher e sua dracma perdida se harmonizava à vida cotidiana do primeiro século.

Essa dracma perdida, em algumas traduções “moeda de prata”, era uma moeda grega. Tal como o denário romano, a dracma correspondia à quantia paga ao trabalhador comum por um dia de serviço. Saiba mais sobre os pesos e medidas da Bíblia.

Alguns sugerem que as dez dracmas eram toda a economia daquela mulher. Outros apontam para a possibilidade de que as dez dracmas faziam parte de seu dote, e eram usadas como um tipo de enfeite. Se for este o caso, então é possível que ela tenha colocado as dez dracmas em uma corrente em volto de seu pescoço.

Conforme o costume da época, ela também poderia ter atado as moedas em uma tira de pano que enfeitava seu penteado. Seja como for, o fato de a mulher perder uma das dracmas foi motivo de grande ansiedade.

Jesus também fala que ao procurar a dracma perdida, a mulher ascende uma lâmpada. Isso indica, provavelmente, que Jesus estava utilizando como pano de fundo para a sua parábola, uma típica casa de uma pessoa de classe pobre. Essas casas eram bem pequenas, tinham piso de terra batida e não havia janelas.

Às vezes, os construtores deixavam algumas pedras faltando na parede, próximo ao teto. Isto servia para permitir a ventilação no interior da casa. Entretanto, tais aberturas de ar não eram suficientes para prover iluminação adequada. Mesmo durante um dia de sol, a casa permanecia escura. Assim, fica evidente a dificuldade que havia na procura de algum objeto pequeno que caía no chão de terra.

Na parábola, com a ajuda de uma lamparina, a mulher então varre a casa em busca da dracma perdida. Ela procura em cada canto, com muita diligência, até que consegue encontrar a moeda. Ao encontrar a dracma perdida, a mulher desejou repartir sua alegria com as amigas e vizinhas, afinal, a dracma estava novamente guardada em segurança.


O significado da Parábola da Dracma Perdida

O clímax da Parábola da Dracma Perdida ocorre exatamente nesse ponto. Jesus afirma que assim como a mulher se alegrou com suas amigas pela moeda encontrada, também Deus se alegra diante de seus anjos quando um pecador se arrepende.

Algumas pessoas, caindo nas armadilhas da alegoria, insistem em atribuir significado a cada um dos elementos dessa parábola. Essas pessoas dizem, por exemplo, que a mulher dessa parábola simboliza o Espírito Santo ou então a própria Igreja. Eles dizem isto ao entender que o pastor da Parábola da Ovelha Perdida simboliza Jesus, enquanto a Parábola do Filho Pródigo foca em representar o Pai.

Outros também afirmam que a lâmpada que a mulher ascende representa o Evangelho. Na sequência, supostamente a vassoura com que ela varre o chão seria a Lei. Mas não é preciso um grande esforço para entender que essas interpretações estão erradas. Elas fogem do objetivo da história contada por Cristo.

Ao se interpretar uma parábola, sempre é preciso priorizar sua mensagem central. Quando se segue essa simplicidade na interpretação, dificilmente se erra o alvo do ensino do Senhor. Não há qualquer necessidade de se atribuir significados para todos os elementos de uma parábola. Esse tipo de coisa apenas distorce sua verdadeira mensagem.

Quando uma parábola possui um elemento que precisa ser identificado no que diz respeito ao seu significado particular, o próprio Jesus deixa isso diretamente expresso em sua narrativa. A Parábola do Semeador é um exemplo disto (Mateus 13:1-9,18-23).

Quanto a Parábola da Dracma Perdida, a mensagem é muito clara: Deus busca pelo perdido, e se alegra grandemente na presença dos anjos por cada um deles que se arrepende.

Aplicação prática da Parábola da Dracma Perdida

O ensino principal da Parábola da Dracma Perdida ficou claro no tópico acima. Com base nele, podemos perceber uma importante aplicação prática para nossa vida cristã. Devemos sempre nos perguntar: Qual tem sido nossa atitude para com os perdidos? Será que estamos tendo a presunção de desprezar aqueles a quem o próprio Deus busca?

O contexto da Parábola da Dracma Perdida nos convida a olhar para o exemplo de Jesus. A Igreja de Cristo deve agir para com os pecadores assim como nosso Senhor agiu. É triste ver que muitos se denominam cristãos, mas seguem o exemplo dos escribas e fariseus. Eles não demonstram amor pelos perdidos.

Ao invés de evitar os pecadores de seu tempo, Jesus frequentemente estava acompanhado deles. Nosso Senhor se assentava à mesa com eles e ativamente os buscava (Lucas 19:10; cf. 19:5; Mateus 14:14. 18:12-14; João 4:4s; 10:16).

Jamais deveríamos correr o risco de desprezar àqueles a quem o Senhor busca. Como seus seguidores, devemos proclamar que Cristo veio “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10). Muitas pessoas talvez não dariam importância a uma simples dracma perdida. Mas tal como aquela mulher buscou sua dracma perdida, Deus busca aqueles a quem o mundo despreza, isto porque o valor e o mérito não estão no perdido, mas Naquele que o encontra.

 

Filho Pródigo

A Parábola do Filho Pródigo é uma das parábolas mais conhecidas entre os cristãos. Essa parábola está registrada apenas no Evangelho de Lucas 15:11-32.

No capítulo 15 de Lucas temos o registro de três parábolas de Jesus. Esse é o capítulo da ovelha desgarrada, da dracma perdida e do filho que se foi. Mas também esse é o capítulo da ovelha recuperada, da dracma encontrada e do filho que voltou. Mais ainda, esse é o capítulo onde o pastor busca a ovelha, a mulher procura diligentemente sua moeda de prata e onde o pai aguarda pacientemente o retorno do filho.

São três parábolas: a Parábola da Dracma Perdida; a Parábola da Ovelha Perdida; e a Parábola do Filho Pródigo. Essa última talvez seja a mais conhecida de todas as parábolas de Jesus.

O que significa “filho pródigo”?

A palavra “pródigo” originalmente transmite um sentido de “extravagância descuidada”. Na aplicação original, o pródigo é aquele que age de uma forma extravagante, além dos limites.

É por isto que em nosso idioma o significado de pródigo pode ser tanto “esbanjador” e “gastador” como “generoso”, “magnânimo” e “abundante ao distribuir”.

Vale dizer que o título “Parábola do Filho Pródigo” não foi divinamente inspirado. Isso significa que esse título não consta no texto original do Evangelho de Lucas, sendo então atribuído à parábola tempos depois.

Talvez esse não seja o título mais apropriado, pois a parábola é muito mais sobre o pai do que sobre o filho. Por este motivo é que alguns estudiosos ao longo do tempo preferiram chamar essa parábola por outros títulos. Por exemplo: Parábola do Pai que Espera; Parábola do Pai Pródigo; e Amor Prodigo Para o Filho Pródigo.

Contexto da Parábola do Filho Pródigo

Quando Jesus contou a Parábola do Filho Pródigo ele estava cercado por publicanos e pecadores que se reuniram para ouvi-lo. Os publicanos eram os cobradores de impostos; judeus que estavam a serviço do Império Romano. Os publicanos eram vistos pelo povo como traidores que extorquiam os próprios irmãos.

Já os pecadores eram as pessoas moralmente marginalizadas e de má reputação na sociedade. Essas pessoas não possuíam um padrão de vida aprovado pelos religiosos da época, e, por isso, elas eram excluídas por eles.

Aos judeus era recomendado que evitassem ao máximo ter contato com essas duas classes de pessoas. Na verdade os rabinos nem mesmo ensinavam tais pessoas.

No entanto, Jesus fazia diferente. Jesus contrariava aquela religiosidade hipócrita. Jesus não apenas tinha contato com aquelas pessoas, mas também comia com elas; e mais além, Ele as buscava. Foi assim com Mateus, um publicano escolhido para compor o grupo dos doze apóstolos.

Esse tipo de comportamento escandalizava os fariseus e os doutores da Lei. Eles ficavam indignados, e frequentemente questionavam Jesus acerca disto. O capítulo 15 do Evangelho de Lucas foi uma dessas ocasiões.

Os rabinos da época concordavam que Deus recebia o pecador arrependido. Mas eles não compreendiam que é o próprio Deus quem busca tais pecadores.

Jesus respondeu àqueles religiosos contando três parábolas, entre elas a Parábola do Filho Pródigo. As três parábolas inegavelmente transmitem uma mensagem central: o extraordinário amor de Deus pelos perdidos. Esse certamente é o ensinamento principal da Parábola do Filho Pródigo.

Explicação e significado da Parábola do Filho Pródigo

A Parábola do Filho Pródigo é muito rica em detalhes, de forma que grandes sermões já foram pregados de perspectivas diferentes. Podemos usar essa parábola, por exemplo, para aprendermos sobre relacionamentos familiares, embora esse não seja o sentido principal dessa parábola.

O segredo para interpretarmos as parábolas de Jesus é nos atentarmos à sua mensagem principal. Não precisamos atribuir significado a todos os elementos de uma parábola, mas devemos direcionar a nossa atenção para o que realmente Jesus estava ensinando.

A Parábola do Filho Pródigo fala de três personagens: o pai; o filho mais novo; e o filho mais velho. Apesar de Jesus não ter nomeado especialmente cada um dos personagens na ocasião em que foi contada essa parábola, esses três personagens claramente tinham significados específicos: o pai representava Deus; o filho mais novo representava os publicanos e pecadores; e o filho mais velho os escribas e fariseus.

Porém, como toda a Palavra de Deus, o ensino presente na Parábola do Filho Pródigo rompe as barreiras do tempo. Ela é tão atual para nós hoje quanto foi há dois mil anos.

Da mesma forma como aquelas pessoas puderam ver a si mesmos enquanto Jesus contava a Parábola do Filho Pródigo, hoje nós também podemos nos identificar como se estivéssemos na frente de um espelho enquanto lemos essas palavras de Jesus.

Quando olhamos para o filho mais novo talvez possamos dizer: esse sou eu. Ou, quando olhamos para o filho mais velho, talvez também possamos dizer: acho que estou me comportando como ele.

É importante dizer que Jesus direcionou a Parábola do Filho Pródigo aos escribas e fariseus. É comum vermos essa parábola sendo usada apenas com ênfase no filho mais novo, e geralmente aplicada àqueles que deixaram a casa do Pai. Porém Jesus enfatiza muito mais o filho primogênito do que o mais novo, fazendo com que a própria parábola aponte especialmente para os religiosos.

A seguir, vamos meditar na exposição do texto bíblico que registra a Parábola do Filho Pródigo.

A atitude do filho mais novo

Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres (Lucas 15:11,12).

O versículo 12 nos mostra que o filho mais novo tinha um plano. Ele queria sair de casa, pois estava cansado da vida no lar do pai. O filho mais novo se sentia preso e queria ser livre.

Então ele pediu a herança ao pai. Ele tinha direito a um terço da herança quando seu pai morresse, porém, ele não podia esperar. Essa atitude foi um completo desrespeito; ele não se importou com a vida do pai. Ele não quis saber se o pai contava com ele para ampará-lo na velhice. Seus planos eram mais importantes. Ele amava mais a si mesmo do que ao pai. Ele quebrou os mandamentos de Deus.

A divisão proposta pelo filho era muito complicada. Alguns estudiosos entendem que pela antecipação ele recebeu a nona parte ao invés de um terço a qual tinha direito. Bem, sobre isso nada sabemos. Mas seja como for, o fato é que tal pedido gerou problemas.

Toda a propriedade precisava ser dividida. Uma parte considerável deveria ser vendida e liquidada. Essa era uma situação que afetava todo o lar, além de ser um insulto ao pai que nunca lhe deixou faltar nada.

O plano do filho pródigo

Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente (Lucas 15:13).

No versículo 13 encontramos o filho mais novo saindo de casa, saindo de sua terra, com liberdade e recurso para viajar o mundo. Ele poderia ir para a Ásia Menor ao norte, ao Egito e a África ao sul, ou Babilônia a leste e Grécia e Itália a oeste.

Não sabemos para onde ele foi. Só sabemos que ele foi para um lugar distante. Ele se afastou o máximo que pôde da casa do pai.

Sua atitude foi completamente inconsequente. Ele juntou tudo o que tinha. Ele não deixou nenhuma reserva na casa do pai para que se caso seu plano desse errado ele pudesse voltar dignamente. Esse filho mais novo viveu de forma dissoluta, da maneira que lhe parecia melhor.

A ruína do filho pródigo

Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade (Lucas 15:14).

No versículo 14 temos notícias do início de sua ruína. Seus recursos acabaram, ele havia gastado tudo e começou a passar necessidades. O dinheiro acabou e a fome chegou.

Para piorar ele estava em terra estrangeira e ninguém podia socorrê-lo, não tinha mais amigo, não tinha mais status, não tinha mais herança. O desejo mundano é passageiro, é ilusão, ele leva embora a alegria, ele arruína a vida, ele traz solidão.

Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos (Lucas 15:15).

O versículo 15 nos mostra a humilhação a qual o filho mais novo foi submetido. Para sobreviver ele foi cuidar de porcos. Devemos nos lembrar de que ele era um judeu, e como tal não podia ter contato com porcos. Estes animais eram considerados imundos pela Lei (Levítico 11:7).

Os rabinos consideravam as pessoas que cuidavam de porcos amaldiçoadas. Com isso percebemos que ele perdeu seus recursos, sua religião e consequentemente sua identidade.

Ali, ele desejava fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada (Lucas 15:16).

No versículo 16 somos informados que ele sentiu tanta fome que desejou comer as lavagens que eram dadas aos porcos, porém o texto parece indicar que ele não chegou a comê-las. Entretanto, o “não comer” não representava alguma dignidade para ele, ao contrário, representava o castigo da fome.

A transformação do filho pródigo

Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! (Lucas 15:17).

Já o versículo 17 nos mostra o momento de seu arrependimento. Lemos que ele “caiu em si”. No originou seria algo como “recobrou seu senso” ou “quando voltou a si mesmo”.

Nesse momento vemos que ele sentiu saudade de casa. Ele descobriu que os empregados temporários de seu pai eram mais dignos do que ele, de modo que tais empregados diaristas tinha o que comer, e ele morria de fome.

Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores (Lucas 15:18,19).

Perceba que nos versículo 18 e 19 ele reconheceu o seu erro. Naquele momento ele soube que seu abandono foi precipitado, que sua decisão foi insensata.

Também entendeu que o que fez não foi apenas um erro, foi um pecado. Ele havia pecado contra Deus e contra o pai. Ele compreendeu quão ingrato ele havia sido, e sabia que não poderia mais ser chamado de filho, então queria ser um empregado temporário.

Nesse exato momento aquele filho mais novo já não era mais o mesmo rapaz inconsequente que saiu da casa do pai. Ele havia sido transformado.

Um pai pródigo para um filho pródigo

E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou (Lucas 15:20).

No versículo 20 lemos que o pai avistou o filho que estava retornando. O pai nunca havia perdido o interesse no filho, e uma vez e outra sempre estava olhando o caminho à espera do dia que o filho voltaria.

O filho, quando partiu, achava que nunca mais voltaria ali, mas o pai tinha certeza de que um dia ele estaria de volta. Isso fica muito claro na reação do pai.

O texto bíblico diz que o pai se compadeceu profundamente. Ele correu para o filho. Naquela época um ancião não podia correr, isso era indigno, mas o pai não se importou com a humilhação, o que importava era o filho a quem ele estava buscando no caminho.

O pai o abraçou, não olhando para as condições em que seu filho estava se aproximando. O filho estava rasgado, descalço, era a personificação da miséria, mas o pai só olhou o arrependimento, e o acolheu em seus braços.

O pai também o beijou repetidas vezes. Perceba que ele se compadeceu, correu, abraçou e beijou, antes de dizer uma única palavra. Que amor maravilhoso. Que graça incompreensível.

E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho (Lucas 15:21).

No versículo 21 vemos que o filho começa a fazer o discurso que havia ensaiado. Ele reconheceu o seu pecado, reconheceu a sua miséria, reconheceu que não tinha mérito algum e reconheceu que não era digno de ser chamado de filho. Porém, algo que realmente merece nossa atenção é o fato de que ele não conseguiu dizer “faz de mim um de seus empregados”. O pai nunca deixou que ele dissesse essas palavras.

O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos (Lucas 15:22,23).

Nos versículos 22 e 23 temos o relato de como o pai o recebe de volta ao lar. O pai queria dar ao filho a importância que ele não merecia, mas seu amor de pai era imenso e inexplicável.

O pai lhe providencia roupa, símbolo de honra; anel, um símbolo de autoridade; sandália, um símbolo de que ele não era um escravo. Aquele filho era um homem livre, pois o amor de seu pai o libertou.

O pai também manda preparar o bezerro cevado. Esse animal era um novilho guardado para ser usado somente na ocasião mais especial. Para o pai, haveria alguma ocasião mais especial do que essa?

Esses versículos nos revelam algo muito profundo. Aqui entendemos que o controle sempre esteve nas mãos do pai. Perceba que enquanto o filho estava vivendo dissolutamente o pai estava fazendo provisão para o filho que retornaria. Enquanto o filho estava esbanjando, o pai estava cevando o novilho, deixando a roupa, o anel e a sandália preparados para o momento do retorno.

Com isto, entendemos que a parábola, como um todo, aponta para a soberania de Deus, que busca ativamente pecadores desprezíveis que não estavam procurando por ele.

Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se (Lucas 15:24).

O versículo 24 possui um significado muito importante que infelizmente muitas pessoas não percebem. Note os contrastes: morto,vivo; perdido,achado.

A explicação dessas palavras é a seguinte: no sentido prático, o filho estava morto pois havia recebido toda sua parte da herança. Ele não fazia mais parte da família. Ele também estava perdido, pois havia sido destruído em suas loucuras, e desperdiçado tudo o que lhe poderia sustentar durante a vida.

Porém há algo mais profundo. A palavra “morto” reflete o grau mais avançado de miséria e de decomposição. Morto não toma ação, não decide, não tem razão sobre si.

Aquele filho estava morto e perdido, ou seja, ele estava no mais profundo estado de desgraça. Porém há uma boa notícia, uma notícia que explica a reação do pai.

O apóstolo Paulo escrevendo aos Efésios, ensina que “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Efésios 2:1).

No mesmo Evangelho de Lucas, o próprio Jesus declara: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10).

O filho mais velho

Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo (Lucas 15:25-28).

Entre os versículo 25 e 28 somos apresentados ao outro filho, o filho mais velho. Esse era o filho pródigo primogênito. Ele nunca se afastou do pai, mas também nunca esteve próximo; ele sempre teve todo o amor que precisava, mas sempre esbanjou o amor e a presença do pai.

Se o filho mais novo se perdeu saindo de casa, o filho mais velho se perdeu dentro de casa. Que coisa terrível, perdido dentro de casa.

Então mais uma vez o pai é quem saiu de casa para ir de encontro a um filho. Dessa vez ele foi encontrar o filho mais velho. Nas palavras do filho mais velho, vemos que ele encarava o relacionamento com o pai na base da recompensa.

Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado (Lucas 15:29,30).

Ele tinha direito a dois terços de toda a herança, mas estava preocupado com um simples novilho. Ele era filho, mas se enxergava como um empregado. No original ele diz algo como: “estive trabalhando como escravo para ti”.

Ele também tentava se auto justificar dizendo: “nunca desobedeci tuas ordens”. Ele não entendia que de um filho se espera mais do que simples obediência; ele não havia entendido que diante de um pai tão bondoso nada do que tinha feito poderia impressionar.

Ele só estava preocupado com as posses do pai, que, consequentemente, eram suas. Ele não amava o pai, apenas queria sua fortuna. Ele não se preocupou com a dor do pai quando ficou sem seu caçula, nem mesmo com o irmão que se foi, pois como mais velho ele poderia ter ido buscá-lo.

Esse filho estava mesmo preocupado era com a herança. Perceba que ele diz “esse teu filho”, ao invés de dizer “esse meu irmão”. Ele era um estranho dentro de casa.

Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu. Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado (Lucas 15:31,32).

A resposta do pai nos versículos 31 e 32 estabelece um tremendo contraste. O pai se dirige a ele dizendo “meu filho”. No original grego a expressão utilizada aqui significa algo como “meu menino”, transmitindo um sentido mais afetuoso.

O pai também usa a expressão “esse seu irmão”, ou seja, o pai o coloca como membro da família, além de demonstrar que havia considerado como justo o filho mais novo.


Lições da Parábola do Filho Pródigo

Não apenas a Parábola do Filho Pródigo, mas todo o capítulo 15 de Lucas, certamente aponta para o extraordinário amor de Deus.

Perceba a alegria do pastor que encontra a ovelha perdida (Lucas 15:6,7); do contentamento da mulher que encontra a dracma perdida (Lucas 15:9,10). Da mesma forma o pai, nessa Parábola do Filho Pródigo, se alegra com o retorno do filho perdido (Lucas 15:23,24, 32).

Claramente também podemos perceber uma intensificação na narrativa de Jesus. Primeiro ele fala da ovelha, depois da drácma e, finalmente, do filho.

Podemos aprender muitas coisas com esse ensino do Senhor. Em primeiro lugar, a Parábola do Filho Pródigo nos ensina que o Pai busca, traz de volta e se alegra na conversão do pecador operada pelo Espírito.

Diante disto, é impossível não perguntarmos: Quem somos nós? Quão perdidos estávamos? Será que merecíamos esse cuidado tão pessoal do próprio Deus?

Tudo o que podemos dizer é que Ele nos ama. Ele faz uma festa por nossa causa, mas entenda que isso não é sobre nós, é inteiramente sobre Ele. Nunca poderíamos ir para casa do Pai sem um caminho que nos levasse até lá. Jesus é esse caminho (João 14:6).

Em segundo lugar, a Parábola do Filho Pródigo nos convida a refletir sobre qual tem sido a nossa posição para com os perdidos. Aqui temos uma importante lição. Diante dos perdidos podemos assumir algumas atitudes diferentes: podemos odiá-los; tratá-los com indiferença; recebê-los quando vierem até nós; ou buscá-los.

Como seguidores de Cristo, cidadãos do reino de Deus, qual tem sido a nossa atitude? Estamos mais parecidos com Jesus ou com os fariseus e doutores da Lei?

Em terceiro lugar, agora falando do nosso relacionamento com o Pai, a Parábola do Filho Pródigo nos leva a fazer as seguintes perguntas: Como estamos nos comportando? Será que somos como o filho mais novo ou como o filho mais velho?

O filho mais novo apenas queria sua parte na herança, e a maneira que ele achou para conseguir isso foi sendo ruim, se afastando e indo embora. Já o filho mais velho também só estava interessado na herança, e a forma que ele achou para consegui-la foi sendo bom, obediente e ficando em casa.

Você percebe que ambos eram ruins? A ruína do filho mais novo foi sua precipitação, inconsequência, insensibilidade e desobediência. Já a ruína do filho mais velho foi seu comprometimento, sua obediência, seu bom serviço e sua sensibilidade superficial. O filho mais novo se afastou do pai por ser muito mau, enquanto o filho mais velho se afastou por ser muito bom.

Em quarto lugar, a Parábola do Filho Pródigo nos traz um grande alerta. É impossível não falarmos sobre o que ocorrem com os dois filhos. A parábola termina com o filho mais novo dentro de casa, participando da festa que o pai promoveu. Por outro lado, a parábola também termina sem mostrar o filho mais velho retornando à casa do pai para se alegrar com seu irmão que voltou.

Não temos nenhuma autorização para irmos além do que o texto bíblico diz. Especificamente na Parábola do Filho Pródigo não sabemos o que ocorreu com o filho mais velho, porém sabemos que esse filho era uma figura dos escribas e fariseus, os mesmos que acabaram crucificando Jesus (Atos 7:52).

Como o filho mais velho, esses religiosos tentavam se auto justificar. Eles se achavam bons de mais, tão bons a ponto de praticamente entenderem que alguém como eles nunca poderia ser privado do paraíso.

Hoje, muitas pessoas se comportam como o filho mais velho. Elas não faltam aos cultos, são obedientes, oram, jejuam e fazem tudo o que podem. Porém nada é verdadeiro, tudo é por interesse. Essas pessoas acham que suas boas obras serão capazes de salvá-las.

Essas pessoas cantam os nossos hinos, usam a nossa Bíblia, dizem ser um dos nossos, e até chamam nosso Deus de Pai. Mas elas são estranhas dentro de casa. Haverá um dia em que fatalmente ouvirão: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:23).

Os filhos mais velhos não entendem nada sobre a graça de Deus. Eles não compreendem que tudo é pelo mérito de Cristo, e que não há nada em nós mesmos que possa nos credenciar à salvação.

Se Deus se alegra na presença de seus anjos por um pecador arrependido, se hoje temos morada na casa do Pai, e se não estamos mais mortos e perdidos em nossos pecados e delitos, isso tudo é pela obra redentora de Cristo na cruz.

 

A história de Jó é uma das mais profundas da Bíblia sobre sofrimento, fé e confiança em Deus.

 1. Quem era Jó?

Jó era um homem justo, íntegro e temente a Deus. Ele era muito rico, tinha muitos filhos, terras e bens.

 2. A prova de Jó

No céu, Satanás questiona Deus, dizendo que Jó só era fiel porque tinha tudo.
Então Deus permite que Jó seja provado.

Em pouco tempo, Jó perde:

  • Seus bens

  • Seus filhos

  • Sua saúde (fica cheio de feridas)

Mesmo assim, ele declara:

"O Senhor deu, o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor." (Jó 1:21)

3. Os amigos de Jó

Três amigos vão visitá-lo:
Elifaz,
Bildade e
Zofar.

Eles dizem que Jó só podia estar sofrendo porque havia pecado.
Mas Jó afirma sua inocência e começa a questionar o motivo de tanto sofrimento.

 4. Deus responde

Depois de muitos capítulos de diálogo, Deus responde a Jó mostrando Sua grandeza e sabedoria.
Deus não explica o motivo do sofrimento, mas mostra que Ele é soberano sobre todas as coisas.

Jó reconhece sua limitação e se humilha diante de Deus.

 5. A restauração

No final, Deus:

  • Repreende os amigos de Jó

  • Restaura sua saúde

  • Dá o dobro de tudo que ele tinha antes

  • Dá novos filhos

Mensagem principal

O livro ensina que:

  • Nem todo sofrimento é consequência de pecado.

  • Deus continua sendo soberano mesmo quando não entendemos.

  • A fé verdadeira permanece mesmo na dor.

Se você quiser, posso te explicar também:

  • Por que Deus permitiu aquilo?

  • O que Jó nos ensina hoje?

  • Ou se a história é literal ou simbólica?

Você gosta desta personalidade?

 

Rico e Lázaro

O Rico e Lázaro é um relato de Jesus registrado apenas no Evangelho de Lucas 16:19-31. Alguns consideram essa narrativa como sendo uma das parábolas de Jesus. Outros entendem que a história do rico e o mendigo é um relato verídico.

Neste texto, conheceremos a explicação da a história do rico e Lázaro. Também meditaremos sobre as lições importantes que podemos aprender através das palavras de Jesus.

O resumo da Parábola do Rico e Lázaro

Em certa ocasião de seu ministério, Jesus contou a história de um rico e um mendigo. Essa história também é conhecida como a Parábola do Rico e Lázaro. O rico se vestia de púrpura e linho finíssimo, e vivia esplendidamente, com fartura e banquetes diários.

Havia também um mendigo, um homem que vivia de forma completamente oposta ao rico. Esse mendigo “desejava se alimentar das migalhas que caíam da mesa do rico” (Lucas 19:21). Talvez por conta da condição precária em que vivia, ele era portador de uma doença de pele. Seu corpo era coberto de feridas, as quais os cães vinham lambê-las.

Num determinado momento, o rico e o mendigo morreram. A alma do mendigo foi amparada pelos anjos do Senhor e conduzida ao céu para estar junto de Abraão. Já o rico foi sepultado e sua alma foi para o Hades, onde estava em constante tormento.

Então o rico clamou a Abraão pedindo que o mendigo molhasse pelo menos a ponta do dedo na água e lhe refrescasse a língua. No entanto, Abraão lhe advertiu que isso não seria possível. Ele lhe fez lembrar-se do tipo de vida que ele teve enquanto estava vivo na Terra. Além do mais, Abraão também lhe informou que havia um grande abismo entre eles, de modo que o mendigo não podia ir até onde ele estava e vice e versa.

O rico também suplicou para que Abraão mandasse o mendigo à casa de seu pai. Ele queria que Lázaro avisasse seus irmãos sobre aquele lugar de tormento, a fim de que pudessem se arrepender e evitar ter o mesmo fim que ele estava experimentando.

Todavia, Abraão lhe respondeu que eles tinham acesso a Moisés e os profetas, ou seja, as Escrituras. Se eles não ouviam os mandamentos do Senhor claramente expressos em sua Palavra, também não iriam ouvir alguém que ressuscitasse dos mortos.

O rico e Lázaro é uma parábola?

Como dissemos, existe muita discussão entre os estudiosos se a história do rico e Lázaro é realmente uma parábola. O principal ponto de discussão acontece pelo fato de Jesus ter nomeado o mendigo, no caso, Lázaro.

Esse é o único relato de Jesus registrado nos Evangelhos em que Ele atribui um nome para um dos personagens. Portanto, caso se trate de uma parábola, o rico e o Lázaro é a única parábola onde o nome de um dos personagens fictícios foi revelado.

Uma coisa que precisa ser ressaltada é que o relato do rico e Lázaro transmite ensinamentos importantíssimos independentemente de ser ou não uma parábola. Devemos nos lembrar de que as parábolas de Jesus transmitem, por meio de ilustrações, ensinamentos e princípios reais.

Isso é importante porque algumas pessoas tentam anular verdades fundamentais do ensino do Senhor nesse relato. Por exemplo, alguns negam a realidade do inferno e a consciência após a morte. Eles tentam se apoiar na desculpa de que o relato é uma parábola.

Há indícios de que esse relato realmente não seja uma parábola, porém é impossível resolvermos definitivamente essa questão. Como a posição mais amplamente aceita é a de que a história do rico e Lázaro deve ser classificada como uma parábola, então neste texto iremos nos referir a ela desta maneira.

O contexto da Parábola do Rico e Lázaro

Não é possível afirmar com toda certeza a exata ocasião no ministério de Jesus em que a Parábola do Rico e Lázaro foi contato. No entanto, podemos claramente perceber uma conexão entre essa parábola e os versículos que a precedem, incluindo a Parábola do Administrador Infiel, registrada no mesmo capítulo.

Indo ainda mais além, também podemos identificar um tipo de sequência dos ensinamentos abordados ainda no capítulo anterior (15).

No capítulo 15, encontramos advertências do Senhor Jesus sobre a atitude incorreta no trato com as pessoas. Os perdidos que eram desprezados pelos escribas e fariseus, eram muito importantes para Deus, de modo que Ele mesmo busca ativamente tais pecadores e se alegra quando um destes se arrepende. Esse é um ensino presente nas três parábolas do capítulo: Parábola da Ovelha Perdida, Parábola da Dracma Perdida e a Parábola do Filho Pródigo.

Já no capítulo 16 lemos as advertências contra o uso incorreto e pecaminoso das possessões (riquezas, bens e propriedades). Jesus é claro ao afirmar que “não se pode servir a Deus e a Mamom” (Lucas 16:). Leia mais sobre o que significa Mamom.

Com base nesse ensino, é possível entendermos que a Parábola do Rico e Lázaro é um tipo de clímax do ensino de Jesus presente nestes dois capítulos. Nela, ele adverte, de uma só vez, sobre o uso indevido das riquezas e sobre o modo desprezível de se tratar o próximo.

O homem rico dessa parábola cometeu todos os erros descritos por Jesus nos versículos anteriores. Ele fatalmente serviu às suas riquezas e desprezou os mandamentos de Deus. Seu modo de vida era egoísta, de modo que ele era “repugnante aos olhos de Deus” (Lucas 16:15).

Como os escribas e fariseus estavam ouvindo as palavras de Jesus registradas nos versículos anteriores. Eles questionaram Jesus por estar cercado por publicanos e pecadores. Depois, começaram a zombar dele diante de sua censura ao amor às posses materiais. Portanto, é claro que essa parábola foi direcionada a eles. Assim, a figura do rico é uma representação perfeita destes religiosos.

Explicação da Parábola do Rico e Lázaro

Creio que nesse ponto já seja possível entender, de maneira geral, o ensino principal da Parábola do Rico e Lázaro. No entanto, para que a explicação fique bastante clara, vamos conhecer um pouco melhor os dois personagens citados nessa narrativa.

O rico

Jesus fornece dados suficientes para entendermos que aquele homem era muito rico. Ele se vestia de “púrpura e linho fino”. Essa tintura púrpura era bastante cara, e era obtida de um molusco. Uma túnica de púrpura era um traje digno de realeza.

Embaixo da túnica de púrpura ele usava linho fino. Além das roupas, aquele homem vivia uma vida de ostentação, participando de festas e banquetes diários. Ele não se importava nenhum pouco com a condição de seu próximo. O rico da parábola era o egoísmo em pessoa.

Quando o rico morreu, Jesus mencionou seu sepultamento. Aqui devemos entender como uma referência a um funeral propício a toda ostentação que aquele homem esbanjou em vida. Ele viveu de forma luxuosa, e sem dúvida seu sepultamento fez jus a sua importância.

Apesar de toda sua riqueza, curiosamente não sabemos seu nome. Jesus não se preocupou em nos informar esse detalhe. Para nosso Mestre, o nome do rico não tinha qualquer importância. Por outro lado, o nome do mendigo que desejava comer as migalhas de sua mesa ficou marcado na História: Lázaro. Jesus se preocupou em revelar o nome daquele pobre homem.

Após a morte, o rico foi para um lugar de tormento. A palavra que aparece originalmente é o grego Hades. Esse termo possui diferentes significados que dependem do contexto. Neste caso específico, a tradução correta é inferno, ou seja, o inferno em seu estado intermediário. A referência é a um lugar de tormento onde a alma do ímpio é atormentada enquanto aguarda a ressurreição do corpo para, após o juízo final, ser lançado no lago de fogo, isto é, o inferno em seu estado final. Saiba mais sobre o significado de Hades.

O comportamento do ímpio no inferno é bastante interessante. Completamente atormentado, ele pediu para que Abraão fizesse com que Lázaro molhasse o dedo na água e colocasse em sua língua. Depois, ele também pediu para que Abraão mandasse Lázaro à casa de seu pai para fazer com que seus cinco irmãos se arrependessem.

Você consegue perceber que mesmo após a morte o rico continuou com seu comportamento egoísta? Você percebe que ele continuava tratando Lázaro como um servo, um garoto de recado?

Outra coisa interessante é que o rico sabia muito bem quem era Lázaro. Ele admite conhecer pelo nome o mendigo que ficava jogado à sua porta esperando por compaixão. Suas palavras no além apenas confirmaram o quanto ele negligenciou a Palavra de Deus. Ele não amou a Deus sobre todas as coisas, muito menos seu próximo como a si mesmo.


Lázaro, o mendigo

Lázaro é um nome latino que deriva do grego Lazaros, que, por sua vez, é uma transliteração do nome hebraico Eleazar, que significa “Deus tem socorrido” ou “Deus ajuda”. Se caso esse relato realmente for uma parábola, então existe a possibilidade de Jesus ter utilizado esse nome justamente para indicar que aquele mendigo, mesmo com todos os problemas e provações que enfrentou durante a vida, tinha depositado toda sua confiança em Deus.

Lázaro morreu, e diferentemente do rico, nada é dito sobre seu sepultamento. Ele não recebeu nenhuma honra terrena, nem mesmo de maneira póstuma. Todavia, algo muito mais importante e glorioso do que isto é dito sobre sua alma: Lázaro foi levado pelos anjos para estar na companhia de Abraão no Paraíso.

Note o contraste impressionante: o mendigo que aqui na terra desejava comer migalhas e tinha por companhia os cães que lambiam suas feridas, agora estava no céu, reclinado à mesa celestial juntamente com Abraão (cf. Mateus 8:11).

Algumas pessoas erroneamente entendem que a expressão “seio de Abraão” designa um lugar temporário, onde os santos esperam a ressurreição de seus corpos. Na verdade esse conceito não existe nas Escrituras, e essa expressão apenas faz referência ao favor especial alcançado por aquele mendigo. Enquanto na terra ele era rejeitado, no céu ele estava junto de Abraão, reclinado sobre ele, assim como o apóstolo João também fazia com Jesus (João 13:25).

Também devemos ressaltar que Abraão é considerado na Bíblia como o grande patriarca do povo judeu. Mas não apenas isto, ele também é considerado como o pai de todos os redimidos que creem em Jesus (Rm 4:11).

Outra coisa interessante é o fato de que no relato, Lázaro não pronuncia uma única palavra, nem enquanto estava vivo, nem mesmo após a morte. Diferentemente do rico, Lázaro em nenhum momento precisa tentar se auto justificar.

Lições da Parábola do Rico e Lázaro

São muitas as lições que podemos tomar desse relato sobre o rico e Lázaro. Antes, precisamos enfatizar que o significado principal da Parábola do Rico e Lázaro é a advertência contra a avareza. A verdade de que as riquezas terrenas de nada valerão na eternidade fica muito clara no texto. Essa parábola é um convite ao arrependimento enquanto ainda há tempo. Após a morte nada mais poderá ser feito.

Estabelecido esse ensino principal, agora podemos pontuar algumas lições derivadas desse princípio:

1. O problema não é ser rico: não existe nenhuma passagem bíblica que ensina que é pecado ser rico. O que a Palavra de Deus condena é o amor ao dinheiro. Não se pode servir a Deus e as riquezas.

Muitos personagens bíblicos foram ricos, como por exemplo, José de Arimateia, um homem que viveu nos dias de Jesus. O ensino bíblico é de que alguém é verdadeiramente rico quando compartilha suas bênçãos materiais e espirituais com os necessitados.

2. A auto justificação não pode livrar ninguém: como vimos, essa parábola foi direcionada aos fariseus, pessoas que achavam que poderiam se apoiar na justiça própria. Eles chamavam Abraão de pai, assim como o rico, e pensavam que por sua linhagem tinham um lugar garantido no Paraíso.

A Palavra de Deus nos revela que é somente através da justificação pela fé em Jesus Cristo que poderemos desfrutar da bem-aventurança eterna (Romanos 5:1)

3. Após a morte, nada mais poderá ser feito: mesmo que o relato do rico e Lázaro for identificado como sendo uma parábola, não podemos negar, de forma alguma, que verdades definitivas acerca da vida por vir são reveladas muito claramente.

Esse texto nos ensina que não existe qualquer possibilidade de comunicação entre vivos e mortos. Nem mesmo é possível alterar a condição de condenação eterna após a morte. A condição de bem-aventurança, como a de Lázaro, ou a de condenação, como a do rico, está fixada para sempre. A oportunidade de vivermos uma vida de acordo com a vontade de Deus deve ser aproveitada agora.

4. O sofrimento é eterno e sem alívio: o ensino que a morte é um sono, e que a pessoa fica completamente inconsciente não encontra sustentação bíblica. Esse ensino se equivale de interpretações equivocadas de algumas passagens do Antigo Testamento.

Na Parábola do Rico e Lázaro Jesus deixou muito claro que os que já partiram estão plenamente acordados e conscientes. Alguns aguardam o dia do juízo na bem-aventurança, enquanto outros aguardam em sofrimento.

5. A salvação é uma obra inteiramente divina: se Espírito Santo não regenerar o pecador, nem mesmo o maior dos milagres poderá fazer com que ele se convença de seu pecado. O rico pediu para que Abraão envia-se Lázaro, e depois qualquer um dos mortos, para que fosse ter com seus irmãos para que estes pudessem se converter.

É claro que o rico mais uma vez estava completamente equivocado. O Evangelho de João nos fala de outro Lázaro, aquele que ressuscitou dos mortos. O resultado dessa ressurreição não foi a conversão dos incrédulos, ao contrário, eles começaram a planejar a morte do próprio Lázaro que acabará de ser ressuscitado (Jo 11).

Por fim, a própria ressurreição de Jesus nos mostra que, se Deus não chamar soberanamente o pecador em sua graça, nunca tal pecador será salvo, ainda que alguém ressuscite dentre os mortos. O homem, morto em delitos e pecados, jamais abandona sua obstinação em ser inimigo da Palavra de Deus.

O rico, mesmo após a morte, não demonstrou arrependimento. Ele apenas lamentou seu sofrimento, mas em nenhum momento indicou que compreendeu os mandamentos do Senhor.

O caráter do rico continuou o mesmo. Ele enxergou Lázaro como um simples servo. Tentou se aproveitar de sua condição de descendente de Abraão ao chamá-lo de “pai”. No final, ele ainda pensou que, até mesmo na eternidade, seus caprichos poderiam ser atendidos.